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Museus Brasileiros do século XIX e o pensamento científico

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  Fotografias das três mulheres expostas na Exposição Antropológica Brasileira de 1882, de autoria de Joaquim Ayres (fonte: catálogo on-line do Museu Etnográfico de Berlim). Copiada do artigo de Marina Vieira. A lembrança mais antiga que tenho de um museu é de um museu de ciências. O ano devia ser 1980 e fui com a minha escola - estava na quarta série primária - ao Museu da PUC-RS. Não esse gigantesco e tecnológico museu que a PUC possui hoje e é programa obrigatório para quem tem filhos pequenos. Era o Museu de História Natural da PUC . Ele ficava em um prédio da universidade que tinha um pátio. Não era um prédio especial. Creio que ocupava algumas salas de um prédio de aulas. Lembro de caixas com insetos transpassados por agulhas e vidros com cobras. Mas a lembrança mais importante é de múmias. Cabeças muito pequenas, duas, para um ser humano real, com cabelos pretos em caixas de vidros. Minha professora disse que eram da América e que ficavam tão pequenas pelo processo de mum...

Os museus da Revolução Francesa

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Catedral de Siracusa. Agosto de  2018 . Muzeon Moscou setembro de 2017 Há duas semanas, a Promotora do Meio Ambiente de Porto Alegre solicitou que eu fizesse um estudo em função de um caso de vandalismo de uma inscrição histórica. Na Rua Santo Antônio, na frente do número 600, havia uma placa instalada em 2015 pela Prefeitura de Porto Alegre e pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) marcando a existência, no casarão em frente, do Dopinho.  O Dopinho, diminutivo de Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi um centro clandestino de repressão entre 1964 e 1966. Lá ocorriam prisões ilegais, interrogatórios e sessões de tortura. Em uma pacata casa, em um bairro de classe média de Porto Alegre, enquanto as famílias no entorno faziam suas refeições ou confraternizavam, pessoas eram submetidas a todo tipo de degradação. O local foi desmobilizado precocemente quando, em 24 de agosto de 1966, apareceu boiando no rio Jacuí, com as mãos amarradas para trás, o ca...

Os primórdios do museu

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Vista da grande Galeria do Louvre  (17960. Hubert Robert (1733-1808)   C omo as coleções nas suas mais diferentes formas - coleções de relíquias medievais, studiolos, câmara de maravilhas, galerias - se transformaram em museu? Qual era a diferença do Museu de  Luxembourg  para o Louvre? Era o caráter público que a Revolução Francesa deu ao museu. Mas por que ocorreu essa mudança? Sem dúvida que o questionamento da sociedade estamental do Antigo Regime, na qual o lugar social  do indivíduo dependia do seu nascimento está na origem dessa mudança. Não parecia justo que somente alguns tivessem acesso ao belo. Mas Ana Cláudia Brefe aponta para um outro fator: a Revolução Francesa como fundadora de uma nova temporalidade, o que é destacado no  tratado de Boissy d´Aglas, de 1792. Segundo a autora, a ideia de progresso, de novo começo em direção a algo melhor, mudou o teor de representação do passado. Daí a necessidade de conservá-lo, ressignificando...

Coleção e colecionismo: os antecedentes dos museus

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Caverna   Chauvet-Pont-d'Arc Cave, 31 mil anos A.P K. Pomian define coleção como: " qualquer conjunto de objetos naturais ou artificiais, mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das atividades econômicas, sujeitos a uma proteção especial num local fechado preparado para esse fim, e expostos ao olhar do público.” (POMIAM, 1984, p. 53). Larreal Soto acrescenta a ordem que essas coisas devem ter (LARREAL SOTO). Alguém pode simplesmente acumular coisas sem ser um colecionador. Na verdade, existe um distúrbio mental denominado transtorno de acumulação caracterizado pela dificuldade em se desfazer de coisas. Mas não é disso que estamos falando. Egydio Colombo Filho, no documentário "Imagine um mundo sem rótulos", nos conta que começou a colecionar rótulos, como gênero, e, à medida que a coleção cresceu, passou a classificá-los: brinquedos, doces, bebidas alcoólicas, e dentro dessas vinhos, cachaças, etc. As coleções existem em diversas sociedades e épocas e...

Museu do Centro Histórico-Cultural Santa Casa: o invisível em mim

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No verbete "Coleção" para a enciclopédia Einaudi, Krzysztof Pomian esclarece que uma coleção (e a instituição que a abriga, o museu) é uma das formas de conectar o mundo visível ao mundo invisível. Esse invisível pode ser várias coisas, o sagrado, a natureza, o passado.  Resolvi começar pelo museu Joaquim Francisco do Livramento, que é nome do espaço museal do Centro Cultural Santa-Casa, por ser o museu, em todo o mundo, que guarda meu invisível mais importante.  O Centro Histórico-Cultural Santa Casa fora inaugurado há uns seis meses, quando o visitei pela primeira vez. Era um dia bastante quente, já no meio da tarde.  Fiquei impressionada com a exposição permanente. Foram escolhidos temas atraentes, como a roda dos expostos em Porto Alegre e as procissões religiosas. Muitos objetos interessantes atraiam a atenção do público.  Foi no segundo andar que tive o encontro com o invisível. Havia uma espécie de arquibancada para o público, de madeira, com...

Quarentena, Wagner e Feminismo

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Há duas semanas tudo mudou.  Bryn Terfel e Deborah Voigt  como Wotan e Brunhilde em A Valquíria Eu havia me organizado para o início das minhas aulas como aluna, na Museologia, e como professora, no Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais e Estratégia. Na graduação, foram somente duas semanas. Na pós, nem comecei. O coronavírus nos colocou em quarentena que já dura quatorze dias.  Coisas para fazer nunca me faltam. Livros para ler, aulas para preparar, trabalho que trouxe do Ministério Público, coisas para arrumar em casa, atividades com os meus filhos. Mas eis que recebi um e-mail do Metropolitan Opera informando o cancelamento da temporada, o que não me afetaria, já que as apresentações são em Nova Iorque. Contudo, para contribuir para a quarentena eles liberariam streams com uma ópera todas as noites. E haveria uma "Wagner Week".  Gosto de ópera. Não vou contar como isso começou, pois teria de fazer outro post. Não é uma manifestação ...

Novo começo

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Estou começando de novo.  Tenho 48 anos (quase 49). Fiz duas faculdades, mestrado e doutorado e estou iniciando a minha terceira graduação: museologia. A motivação foi pragmática. Em 2014, tornei-me responsável pelos inquéritos civis de patrimônio cultural do Ministério Público do Rio Grande do Sul, onde trabalho como historiadora. Minha tarefa é fazer pareceres, quando solicitados pelo promotor ou promotora, a respeito de patrimônio cultural: imóveis, coleções, museus, arquivos, etc. Cada inquérito é o tema de uma nova pesquisa. Em geral, preciso estabelecer o valor histórico e cultural de determinado imóvel, peça, etc. Algo bastante complexo e a respeito do que ainda quero falar por aqui. Contudo, para museus e arquivos, em geral me é solicitado que verifique se o local está de acordo com as normas prescritas. Sim, você que me lê está pensando, isso é trabalho para um museólogo ou para um arquivista. Mas na realidade do nosso serviço público já é algo extraordinário que exista...