Os primórdios do museu

Vista da grande Galeria do Louvre
 (17960. Hubert Robert (1733-1808)

 

Como as coleções nas suas mais diferentes formas - coleções de relíquias medievais, studiolos, câmara de maravilhas, galerias - se transformaram em museu? Qual era a diferença do Museu de Luxembourg  para o Louvre? Era o caráter público que a Revolução Francesa deu ao museu. Mas por que ocorreu essa mudança?

Sem dúvida que o questionamento da sociedade estamental do Antigo Regime, na qual o lugar social  do indivíduo dependia do seu nascimento está na origem dessa mudança. Não parecia justo que somente alguns tivessem acesso ao belo. Mas Ana Cláudia Brefe aponta para um outro fator: a Revolução Francesa como fundadora de uma nova temporalidade, o que é destacado no  tratado de Boissy d´Aglas, de 1792. Segundo a autora, a ideia de progresso, de novo começo em direção a algo melhor, mudou o teor de representação do passado. Daí a necessidade de conservá-lo, ressignificando-o. Tratava-se de preservar materialmente os objetos, despojando-os dos símbolos associados ao Antigo Regime. E preparar o futuro, proporcionando aos artistas bons modelos para aprendizado e ao público o que Pierre Nora denomina de lugar da memória:

"Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais. (...). Mas se o que eles defendem não estiver ameaçado, não se teria, tampouco, a necessidade de construí-los" (NORA, 1993, p. 13). 

O museu será, a partir do século XIX, um dos lugares da memória por excelência. Mas "se o que eles defendem não estiver ameaçado, não se teria, tampouco, a necessidade de construí-los". A ruptura revolucionária apontou esses lugares como campos de disputa. Havia os que consideraram que as obras ligadas ao feudalismo deveriam ser destruídas, como foi feito por toda a França. Havia os adeptos da preservação com propósitos pedagógicos. Havia os favoráveis a pilhar os bens dos países que perdiam as guerras. Havia os que questionavam isso, como Quatrèmere de Quincy. Ou seja, a memória, não espontânea, construída e debatida foi identificada como ameaçada. E talvez esteja aí uma das chaves da diferença entre o Museu de Luxembourg aberto em 1750 e do Louvre aberto em agosto de 1793.


Enciclopédia de Zedler

Bibliografia:


BREFE, Ana Cláudia Fonseca. Os primórdios do museu: da elaboração conceitual à instituição publica. Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História,São Paulo, (17), nov. 1998. 

NORA, Pierre; AUN KHOURY, Tradução: Yara. Entre a Memória e História: a problemática dos lugares. Projeto História : Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, [S.l.], v. 10, out. 2012. 

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