Coleção e colecionismo: os antecedentes dos museus

Caverna  Chauvet-Pont-d'Arc Cave, 31 mil anos A.P


K. Pomian define coleção como: "qualquer conjunto de objetos naturais ou artificiais, mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das atividades econômicas, sujeitos a uma proteção especial num local fechado preparado para esse fim, e expostos ao olhar do público.” (POMIAM, 1984, p. 53). Larreal Soto acrescenta a ordem que essas coisas devem ter (LARREAL SOTO). Alguém pode simplesmente acumular coisas sem ser um colecionador. Na verdade, existe um distúrbio mental denominado transtorno de acumulação caracterizado pela dificuldade em se desfazer de coisas. Mas não é disso que estamos falando. Egydio Colombo Filho, no documentário "Imagine um mundo sem rótulos", nos conta que começou a colecionar rótulos, como gênero, e, à medida que a coleção cresceu, passou a classificá-los: brinquedos, doces, bebidas alcoólicas, e dentro dessas vinhos, cachaças, etc.

As coleções existem em diversas sociedades e épocas e, segundo Pomian, seu aparecimento representa a emergência da cultura, sendo a mudança mais importante das que se seguiram ao controle do fogo pelo homem (POMIAM, 1984, p. 71). O motivo dessa universalidade é o que faz desse texto um dos mais importantes que já li. Os objetos das coleções participam do intercâmbio que une o visível e o invisível, e essa oposição é universal (POMIAM, 1984, p. 67-68). Assim, os objetos que vemos representam o que não vemos, que é o mais importante. Esse invisível é construído pela palavra, ao passo que o visível é acessível pelo olhar.

Continuando com Pomiam, a partir do Paleolítico superior ocorre uma divisão dentro do visível: há objetos com utilidade, há objetos com significado ,os semióforos, e há objetos com utilidade que se tornam semióforos (POMIAM, 1984, p. 72). E quanto mais significado um objeto tem, menos utilidade. E vice e versa.

Explicando um pouco mais. O pijama que usei ontem tem somente utilidade. Um ex voto deixando em um santuário já nasceu um semióforo. E, como foi lembrado na aula (dia 20 de agosto de 2020), o pijama de Getúlio Vargas era somente um pijama. Se não houvesse ocorrido o suicídio em 24 de agosto de 1954, teria tido o destino das roupas em geral: seria usado até ficar velho e deixaria de existir. O fato desse pijama estar sendo usado nesse dia, fez do pijama listrado um semióforo. No caso do ex voto, o invisível é a relação com o sagrado. No caso do pijama do presidente, o invisível é a memória daquele que é considerado um dos políticos mais importantes do Brasil, com todas as suas contradições ("pai dos pobres", "ditador sanguinário", etc.).

Assim, Pomiam rejeita o estudo das coleções a partir de critérios como como gosto, prazer estético ou interesse. O que se deve explicar é o porquê do gosto se dirigir a determinados objetos e não a outros:

“É importante saber como a sociedade traça a fronteira entre o visível e o invisível. A partir daí, é possível estabelecer o que é significante para uma dada sociedade, quais os objetos que privilegia e quais são os comportamentos que estes objetos impõem a colecionadores; e fazer um mapa dos lugares onde se opera a junção entre o invisível e o visível e onde residem aqueles que, por representarem o invisível, devem por esse motivo acumular semióforos e expô-los” (POMIAM, 1984, p. 75).

Inicialmente acessíveis somente aos poderosos, artistas e cientistas, o acesso aos semióforos passou a ser reivindicado pelas camadas médias a partir do século XVII, quando começou a fundação de museus e bibliotecas (existiam bibliotecas na antiguidade e idade média, mas com outro sentido). Dessa forma, “o museu aparece como uma das instituições cuja função consiste em criar um consenso sobre o modo de opor o visível ao invisível que tinha começado a delinear-se no final do século XIV, nas novas hierarquias sociais, justificando a posição privilegiada no seio destas pela relação privilegiada que se mantém com o novo invisível. Por outras palavras: os museus substituem as igrejas enquanto locais onde todos os membros de uma sociedade podem comunicar na celebração de um mesmo culto” (POMIAN a, 1984, p. 84). O incremento dos museus nos séculos XIX e XX se explica pela secularização das sociedades.

Nas sociedades contemporâneas, as pessoas comuns não somente demandam acesso aos semióforos, como também colecionam os mais variados objetos produzidos em massa (BLOM, 2002, p. 193). Como os rótulos de Egydio Colombo Filho, que hoje se encontram musealizados no Museu Paulista. Esse objetos - tampinhas de garrafa, latas de cerveja, papéis de bala, marcadores de livros, globos de neve (que eu coleciono) representam o invisível para seus bilhões de colecionadores.


Bibliografia: 


BLOM, Philipp. Ter e manter: uma história íntima de colecionadores e coleções. Rio de Janeiro: Record, 2002. 


LARREAL SOTO, H. E. Coleccionismo, museos y museologia. Disponível em: https://www.academia.edu/38525142/COLECCIONISMO_MUSEOS_Y_MUSEOLOG%C3%8DA Acesso em 20 de agosto de 2020. 


MACIEL, Ana Carolina de Moura. Imagine um mundo sem rótulos, 2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=u1nfp7MJgtM. Acesso em 20 de agosto de 2020. 


POMIAN, K. Colecção. Enciclopédia Einaudi, v. 1. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p. 51-86, 1984. 




Imagem do documentário "Imagine um mundo sem rótulos"



Minha coleção de bolinhas de neve




Pijama de Getúlio Vargas






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