Museus Brasileiros do século XIX e o pensamento científico
A lembrança mais antiga que tenho de um museu é de um museu de ciências. O ano devia ser 1980 e fui com a minha escola - estava na quarta série primária - ao Museu da PUC-RS. Não esse gigantesco e tecnológico museu que a PUC possui hoje e é programa obrigatório para quem tem filhos pequenos. Era o Museu de História Natural da PUC. Ele ficava em um prédio da universidade que tinha um pátio. Não era um prédio especial. Creio que ocupava algumas salas de um prédio de aulas.
Lembro de caixas com insetos transpassados por agulhas e vidros com cobras. Mas a lembrança mais importante é de múmias. Cabeças muito pequenas, duas, para um ser humano real, com cabelos pretos em caixas de vidros. Minha professora disse que eram da América e que ficavam tão pequenas pelo processo de mumificação. Não lembro mais nada, fora algo do trajeto de ônibus escolar de volta para o colégio.
Pois agora, descubro que o primeiro museu que visitei foi o modelo que floresceu no mundo todo no século XIX, que Lília Schwarcz chama de"a era dos museus" (SCHWARCZ, 1993, p. 67). E que o primeiro museu brasileiro, o Museu Real criado em 1818, depois Museu Nacional, era desse mesmo tipo. Aquele pequeno museu de ciências da PUC-RS, com suas coleções repetitivas e expostas de forma um tanto "atravancada" tinha uma parentesco nobre. Pois:
"é possível identificar na realidade concreta desses objetos a ideia de museu universal, de caráter metropolitano construído em moldes europeus, que almejava ser completo sim, mas de coleções que representassem o mundo todo, tais quais os museus das nações civilizadas, entre as quais nos almejávamos incluir” (LOPES, 2009, p. 70). Até as múmias, cuja presença no Museu Nacional, Maria Margaret Lopes acusa a historiografia de não compreender, estavam no museu da minha infância. Americanas, mas, com certeza, se houvesse egípcias, estariam expostas.
O professor Jeter Bertolletti, organizador do museu a partir de uma coleção própria na época em que era estudante de Ciências Naturais, conta que ele "funcionava em uma área de 220 m2 de exposições, com cerca de 7 mil peças de áreas como arqueologia, zoologia, botânica, paleontologia, geologia etc. Havia uma réplica de um mastodonte de 3 metros de altura. Tínhamos vários aquários marinhos e de água doce e cerca de 30 aparelhos interativos fabricados por mim para explicar conceitos da física e química" (PIERRO, 2015). Ele chega a mencionar que pensou em criar algo novo no Brasil "Um museu que pudesse abrigar não só coleções, mas também laboratórios de pesquisa básica e aplicada". Não era exatamente novo, pois, em 1824, foi criado um laboratório de química no Museu Nacional, transferido para a Faculdade de Medicina em 1836 (LOPES, 2009, p. 65 e 78).
Lembro de caixas com insetos transpassados por agulhas e vidros com cobras. Mas a lembrança mais importante é de múmias. Cabeças muito pequenas, duas, para um ser humano real, com cabelos pretos em caixas de vidros. Minha professora disse que eram da América e que ficavam tão pequenas pelo processo de mumificação. Não lembro mais nada, fora algo do trajeto de ônibus escolar de volta para o colégio.
Pois agora, descubro que o primeiro museu que visitei foi o modelo que floresceu no mundo todo no século XIX, que Lília Schwarcz chama de"a era dos museus" (SCHWARCZ, 1993, p. 67). E que o primeiro museu brasileiro, o Museu Real criado em 1818, depois Museu Nacional, era desse mesmo tipo. Aquele pequeno museu de ciências da PUC-RS, com suas coleções repetitivas e expostas de forma um tanto "atravancada" tinha uma parentesco nobre. Pois:
"é possível identificar na realidade concreta desses objetos a ideia de museu universal, de caráter metropolitano construído em moldes europeus, que almejava ser completo sim, mas de coleções que representassem o mundo todo, tais quais os museus das nações civilizadas, entre as quais nos almejávamos incluir” (LOPES, 2009, p. 70). Até as múmias, cuja presença no Museu Nacional, Maria Margaret Lopes acusa a historiografia de não compreender, estavam no museu da minha infância. Americanas, mas, com certeza, se houvesse egípcias, estariam expostas.
O professor Jeter Bertolletti, organizador do museu a partir de uma coleção própria na época em que era estudante de Ciências Naturais, conta que ele "funcionava em uma área de 220 m2 de exposições, com cerca de 7 mil peças de áreas como arqueologia, zoologia, botânica, paleontologia, geologia etc. Havia uma réplica de um mastodonte de 3 metros de altura. Tínhamos vários aquários marinhos e de água doce e cerca de 30 aparelhos interativos fabricados por mim para explicar conceitos da física e química" (PIERRO, 2015). Ele chega a mencionar que pensou em criar algo novo no Brasil "Um museu que pudesse abrigar não só coleções, mas também laboratórios de pesquisa básica e aplicada". Não era exatamente novo, pois, em 1824, foi criado um laboratório de química no Museu Nacional, transferido para a Faculdade de Medicina em 1836 (LOPES, 2009, p. 65 e 78).
Esse modelo de museu é tributário do iluminismo e de sua tradição enciclopédica. Mas ele se estrutura na época de desenvolvimento do pensamento científico. O apogeu do modelo ocorre a partir da década de 1880, quando "se contratam novos profissionais, (...) se aparelham os estabelecimentos com vistas a cumprir seus novos fins científicos" (SCHWARCZ, 1993, p. 90). Parece contraditório, mas essa profissionalização coincidiu com uma gestão mais personalista dos diretores do Museu Nacional e dos dois outros museus importantes da época, o Museu Paulista e o Museu Paraense Emílio Goeldi.
É interessante verificar que os primeiros estudos a respeito do homem, suas origens, seus costumes, ocorrerá dentro desse contexto. Segundo Schwarcz, os museus buscaram discutir o homem brasileiro (SCHWARCZ, 1993, p. 91). Aqui temos que ter em conta o grande cenário no qual ocorriam esses debates.
Felipe Contri Paz, em sua ótima exposição a respeito das teorias raciais do século XIX, nos relatou a respeito da instrumentalização de seres humanos para fins científicos e recreativos no século XIX. A horrível história da africana Saartjie Baartman, que era exibida como atração na Inglaterra e na França, e cujos restos mortais só recentemente retornaram à África do Sul. E algo muito mais próximo: a Exposição Antropológica Brasileira inaugurada em 29 de outubro de 1882. A grande atração, anunciada nos jornais, era a exposição de sete membros de uma família de índios botocudos.
Marina Vieira destaca que, no contexto do século XIX, a denominação mais adequada para esse tipo de espetáculo é "zoológico humano" e não o termo da época, "exibição ou exposição etnográfica", pois eram desenvolvidos entre o "colonialismo e a cultura de massas, combinando funções de espetáculo, educação e dominação" (VIEIRA, 2019).
Vale a pena ler o artigo de Marina Vieira, que descreve com detalhes esse aspecto sinistro da Exposição Antropológica, que, nos jornais da época, é tratada como um marco, uma espécie de cartão de visitas de um Brasil com credenciais científicas para o mundo desenvolvido. E, na literatura sobre história da ciência brasileira, como as obras de Lopes e Schwarcz, é apenas mencionado.
Não é por acaso que esse tema tem despertado interesse justamente nesse momento. Christine Sylvester diz que não vivemos na era da globalização, mas na era pós colonial (SYLVESTER, 2003, p. 185). Estudos pós coloniais, no mundo todo, têm investigado o fenômeno colonial do ponto de vista do colonizado. Para isso, é preciso ir além das fontes tradicionais: buscar literatura, diários, relatos, imagens. Os países que sofreram com a colonização têm exigido indenizações pela exploração e genocídios. E uma das grandes discussões atuais da Museologia é a repatriação de bens culturais saqueados na época colonial.
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| Cabeça mumificada do guerreiro argelino Aïssa Al-Hammadi, que se encontrava no Museu do Homem em Paris |
Aqui as minhas duas áreas se encontram. Leciono Relações Internacionais da África e da Ásia. Na semana passada, estava preparando uma aula sobre a guerra de independência da Argélia. E eis que a professora Zita disponibilizou no moodle um texto, do antropólogo e historiador argelino Ali Belkadi, sobre despojos de guerreiros da Argélia que lutaram contra a dominação francesa no século XIX que se encontravam no Museu do Homem em Paris, em caixas, alguns em condições precárias. Eram muçulmanos e não tiveram direito às cerimônias adequadas por ocasião de seu falecimento (BELKADI, 2014). Pois no dia 3 de julho de 2020, o governo francês remeteu à Argélia os despojos, por ocasião do 58° aniversário da independência argelina, como gesto de "apaziguamento" (odeio esse termo!) entre Paris e Argel (ZERROUKY, 2020).
Vou acrescentar esse detalhe à minha aula. E tudo começou no modesto museu de ciências da PUC-RS em uma manhã de sol em 1980.
Observação: O Museu de Ciência e Tecnologia da PUC-RS deveria ter em seu site algo dedicado a esse seu embrião, o Museu de História Natural. A única coisa que encontrei foi a entrevista do professor Jeter Bertoletti em uma revista de São Paulo. Museus têm a sua própria memória.
Bibliografia
BELKADI, Ali. À quand le retour des sépultures des résistants algériens, exposées dans les musées de France ? Tribune libre, 4 de dezembro de 2014. Disponível em: https://www.algerie-focus.com/2014/12/tribune-libre-quand-est-ce-que-les-restes-des-resistants-algeriens-sequestres-en-france-seront-ils-restitues/. Acesso em 13 de setembro de 2020.
LOPES, Maria Margaret. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais do século XIX. São Paulo: Aderaldo & Rothschild; Brasília: Ed. da UNB, 2009.
PIERRO, Bruno de. Jeter Bertoletti: semeador de acervos. Revista Pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, São Paulo, Ed. 237, nov. 2015. Disponível em https://revistapesquisa.fapesp.br/jeter-bertoletti-semeador-de-acervos/. Acesso em 6 de setembro de 2020.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Cia das Letras, 1993.
SYLVESTER, Christine. Pós-colonialism. IN: BAYLIS, John: SMITH, Steve; OWENS, Patricia Owens. The Globalization of World Politics. Oxford: Oxford University Press, 2013.
VIEIRA, Marina Cavalcante. A Exposição Antropológica Brasileira de 1882 e a exibição de índios botocudos: performances de primeiro contato em um caso de zoológico humano brasileiro. Horiz. antropol., Porto Alegre , v. 25, n. 53, p. 317-357, abr. 2019 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832019000100317&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 14 set. 2020.
ZERROUKY, Madjid. La France remet à l’Algérie vingt-quatre crânes de résistants décapités au XIXe siècle et entreposés à Paris. Le Monde, 3 de julho de 2020. Disponível em: https://www.lemonde.fr/afrique/article/2020/07/03/la-france-remet-a-l-algerie-24-cranes-de-resistants-decapites-au-xixe-siecle-et-entreposes-a-paris_6045108_3212.ht. Acesso em 13 de setembro de 2020.


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