Quarentena, Wagner e Feminismo

Há duas semanas tudo mudou. 
Bryn Terfel e Deborah Voigt 
como Wotan e Brunhilde em A Valquíria
Eu havia me organizado para o início das minhas aulas como aluna, na Museologia, e como professora, no Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais e Estratégia. Na graduação, foram somente duas semanas. Na pós, nem comecei. O coronavírus nos colocou em quarentena que já dura quatorze dias. 
Coisas para fazer nunca me faltam. Livros para ler, aulas para preparar, trabalho que trouxe do Ministério Público, coisas para arrumar em casa, atividades com os meus filhos. Mas eis que recebi um e-mail do Metropolitan Opera informando o cancelamento da temporada, o que não me afetaria, já que as apresentações são em Nova Iorque. Contudo, para contribuir para a quarentena eles liberariam streams com uma ópera todas as noites. E haveria uma "Wagner Week". 
Gosto de ópera. Não vou contar como isso começou, pois teria de fazer outro post. Não é uma manifestação artística muito difundida. Montar uma ópera é algo muito custoso. Logo, o ingresso é caro. E o público envelhece cada vez mais. Nas vezes em que assisti a óperas no Brasil ou fora, me senti muito jovem! A crise de alto custo e envelhecimento do público tem feito as grandes companhias, como o Met, criarem alternativas como o streaming e as apresentações em cinemas ao vivo, no mundo todo. 
Mas vamos ao que interessa. Gosto de Wagner. Meu sonho, que realizarei, é ir ao festival de Bayreuth. As óperas de Wagner têm, em geral, quatro horas de duração. Isso significa que, com a minha rotina normal, poderia assistir uma ópera em um final de semana, se me programasse para isso. Mas o Met me deu esse presente na quarentena.
Maratonei as óperas de Wagner: Tristão e Isolda, O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried, O Crepúsculo dos Deuses (essas quatro formam O Anel dos Nibelungos), Os Mestres Cantores de Nuremberg e Tannhauser. Foi uma experiência incrível e única. 
Foi nas quatro óperas que formam O Anel dos Nibelungos que algo me chamou a atenção.  Resumindo, o ciclo é a saga de um herói, Siegfried, neto do deus Wotan, que consegue retomar o anel que fora roubado do rio Reno em forma de ouro por um anão, um Nibelungo. Os personagens mais importantes são Siegfried, Wotan e Brunhilde, uma valquíria, filha de Wotan com a deusa Erda. Sua função é levar ao Valhala  os heróis mortos em combate. 
Brunhilde é A Valquíria. Ela tem sete irmãs, todas com a mesma tarefa, devendo estrita obediência a Wotan. Na primeira cena em que aparece, ela é uma filha obediente que recebe ordens do pai. Mas a partir desse momento, ela começa a fazer a sua própria história. Desobedece Wotan, sabendo que será duramente punida. Antes de encontrar o pai, furioso, quebra a tradição e, ao invés de levar um herói morto, leva uma mulher viva ao Valhalla. A mulher é Sieglinde, que está grávida do herói Siegfried. É um lindo momento do que se chama agora de sororidade (e que está expresso na música também). Tendo salvado Sieglinde, Brunhilde recebe sua punição: perderá sua condição de Valquíria e terá que se submeter ao homem que conseguir acordá-la de um sono mágico em uma montanha cercada de fogo. Ela protesta. De forma inteligente, mostra ao pai que, tendo a ele desobedecido, fez o que ele realmente desejava fazer. Mas ele não cede. Já sabemos que o herói que irá acordá-la  será Siegfried, título da próxima ópera do ciclo. 
Passemos a ele. Siegfried é um heroi que não entende o mundo que o cerca. Ele é forte e impetuoso. Começa do mesmo jeito que termina. Ele conquista o anel sem saber o seu significado. Ele não percebe que o universo à sua volta está mudando. É a própria Brunhilde que o salva, através de Sieglinde, e é a Valquíria que escolhe seu nome. Enfim, Siegrified é valorizado por Wotan por não ter medo, pois assim poderá recuperar o anel. Mas a ausência de medo, o faz ser imprudente e ser enganado por vários: Mime, Wotan, Hagen, Gunther, Gutrun.
Não sou especialista em ópera tampouco  na obra de Wagner. Sou somente uma apreciadora. Sei que existe uma vasta bibliografia analisando esse conjunto sob mais diversos pontos de vista. Não a li. Mas assistindo ao Anel, assim na sequência (já havia assistido às óperas antes, mas separadamente), não pude deixar de pensar que a heroína é Brunhilde. É ela que cresce na história. É ela que entende tudo o que aconteceu. Na terceira cena do quarto ato ela diz: "Ele, o mais verdadeiro de todos [Siegfried], teve que me trair, para que uma mulher sábia nascesse. (...) Tudo, tudo, eu sei tudo. Tudo agora está claro para mim". (o significado desse "tudo" é objeto de debates que ocupariam uma vida inteira). Ou seja, mais do que o todo poderoso Wotan, ela tem o domínio da história. 
Não pude deixar de refletir o motivo pelo qual Richard Wagner criou um personagem feminino tão forte, tão destoante do seu par masculino. Conheço só o básico de sua biografia. Sei que ele era uma pessoa pouco agradável, de temperamento narcisista. Que era antissemita, tendo fornecido farta munição para os nazistas. Inclusive, no Anel, o personagem Mime, o anão que criou Siegfried, é um esteriótipo de judeu. Casou duas vezes e, como os homens daquela época (e os dessa também), teve vários casos. Obviamente, não era um feminista avant la lettre. Mas, às vezes, os artistas expressam coisas que eles não queriam conscientemente expressar. E, nós, amantes da arte, a reinterpretamos de acordo com a nossa época. Se eu fosse uma mulher bávara e tivesse comparecido à estreia do Ouro do Reno no Teatro Nacional de Munique, em 22 de setembro de 1869, outras coisas teriam chamado a minha atenção. 
Há outras mulheres interessantes nas óperas de Wagner. Mas não vou alongar demais esse texto, já longo. Pensei tudo isso e coloquei no google "Wagner feminism". Encontrei algumas coisas, mas li somente o artigo de Natasha Walter para o The Guardian. Minhas reflexões não eram originais, é claro. Até a sororidadede entre Brunhilde e Sieglinde está lá. Mas há vários outros pontos interessantes no texto, sendo um dos mais, a relação dos homens wagnerianos com o amor. 
Esses dias têm sido difíceis e assustadores. Temos a impressão de que uma nova era, muito difícil, está iniciando. E que estamos começando a pagar o preço dos erros que a humanidade, de forma coletiva, cometeu. Talvez a arte agora seja mais importante do que nunca. 
Deixo a cena final do Crepúsculo dos Deuses. Que consigamos sair mais fortes dessa crise. 

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