Museu do Centro Histórico-Cultural Santa Casa: o invisível em mim
No verbete "Coleção" para a enciclopédia Einaudi, Krzysztof Pomian esclarece que uma coleção (e a instituição que a abriga, o museu) é uma das formas de conectar o mundo visível ao mundo invisível. Esse invisível pode ser várias coisas, o sagrado, a natureza, o passado.
Resolvi começar pelo museu Joaquim Francisco do Livramento, que é nome do espaço museal do Centro Cultural Santa-Casa, por ser o museu, em todo o mundo, que guarda meu invisível mais importante.
O Centro Histórico-Cultural Santa Casa fora inaugurado há uns seis meses, quando o visitei pela primeira vez. Era um dia bastante quente, já no meio da tarde.
Fiquei impressionada com a exposição permanente. Foram escolhidos temas atraentes, como a roda dos expostos em Porto Alegre e as procissões religiosas. Muitos objetos interessantes atraiam a atenção do público.
Foi no segundo andar que tive o encontro com o invisível. Havia uma espécie de arquibancada para o público, de madeira, com três degraus, e um filme antigo sendo passado em um monitor. Mas a maioria dos que estavam sentados não o assistia, conferia os celulares ou mostrava os seus para os outros.
“Maternidade Mario Totta, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1946.
O primeiro serviço de assistência às mulheres grávidas de Porto Alegre foi fundado pelo professor Mario Totta, com a criação da Maternidade que hoje ostenta o nome do seu fundador e que tem sido classificada pelos profissionais nacionais e estrangeiros, que a visitaram, um estabelecimento modelar”.
O narrador tinha voz dos narradores dos noticiosos de cinema, coisa que não existe mais. Mas o acento e algumas palavras faziam parecer português de Portugal. A imagem, preto e branca e bastante tremida, era nítida, apesar disso.
Quando sentei, o filme estava acabando e iria recomeçar. Depois da introdução, tudo foi muito rápido. Ambulâncias antigas saindo do prédio, homens de chapéu e mulheres de vestido preto. Um médico auscultando uma paciente. O doutor Mario Totta fazendo anotações, cercado de dois assistentes. Uma mulher chegando em uma ambulância e sendo removida em uma maca. “Mais um homem no mundo”. Uma freira colocando um bebê pelado na água. “Três quilos e oitocentas gramas”. Uma enfermaria com duas fileiras de camas com mulheres, algumas sentadas, outras deitadas, um médico conversando com uma e tomando notas em uma prancheta. Irmãs e funcionárias carregando um carrinho com comida, servindo sopa e entregando às pacientes. Um médico usando um microscópio. Médicos se escovando antes de entrar em cirurgia. Médicos, tapados de branco, operando. Uma mulher recebendo transfusão de sangue. Uma sala com dezenas de bercinhos, iguais aos da exposição permanente, com bebês. Uma incubadora para bebês prematuros, com dois bebês sendo acariciados por duas enfermeiras. “Eis o abrigo dos enjeitados, substituto da vetusta e desumana roda dos expostos que foi extinta em Porto Alegre pelo professor Mario Totta. Sem pai nem mãe, mas à sombra protetora da Maternidade, sob o cuidado dos médicos e sob a bênção do anjo da guarda”. Era uma divisória com seis berços visíveis e duas irmãs cuidando dos enjeitados. Uma delas sorria para a câmera. Um bebê em close, cabeludo, muito acordado, seguido pela imagem uma estátua de um anjo na parede, com os braços abertos e expressão nada acolhedora. Na sequência, freiras banhando e vestindo bebês. “Uns gritam porque entram no banho, outros porque saem dele. Já começam aqui os contrastes da vida”. As mães esperando em “uma torcida ansiosa” os 53 recém-nascidos. Uma irmã empurrando um carrinho com dez bebês enfileirados. Após, vai entregando um a um, para as mães cujos seios estão “cheios com o repouso da noite”. O processo de identificação garante absoluta segurança, no pulso de um bebê há uma pulseira e uma ficha de metal que tem o mesmo número da ficha usada pela mãe, e que também está no berço e no leito da mulher. Uma mãe tem seu leite retirado por uma bomba para o seu bebê prematuro. O refeitório das irmãs e enfermeiras. A primeira dama, Avany Cordeiro de Farias, patrona da seção de puericultura, com um sobretudo, chapéu e luvas, cercada por dois prelados, inaugurando a Maternidade da Instituição, por cuja nobre causa ela tanto se interessa. A placa com o nome da distinta senhora. Após, uma sala de espera com pequenas divisórias, todas ocupadas com mães e bebês aguardando atendimento no serviço de puericultura, onde, no ano anterior, foram atendidas 3180 crianças. Um menino pelado, de uns seis meses sendo examinado por um médico e uma enfermeira. Uma enfermeira ensinando as mães a preparar mamadeira. Ao ter alta, a mãe recebendo uma caderneta e sendo orientada a trazer o bebê todos os meses ao serviço até ele completar um ano. Na saída, a mulher recebendo um pacote com roupas e um cobertor. Na última cena, uma enfermeira sorrindo com mesmo bebê do close, o enjeitado, no colo.
O filme começava e terminava, não sei quantas vezes o assisti. Sei que, certa hora, uma moça entrou e disse que eu tinha de ir embora, que o Centro estava fechando e eu não poderia ficar ali.
— Minha mãe nasceu nessa maternidade em 1946. Minha vó poderia estar nesse filme.
— Que legal — ela não estava muito interessada, queria ir embora — E tu não reconheceu a tua vó?
— Nunca vi a minha vó. Minha mãe é filha adotiva.
É o tipo de coisa que não se fala a um desconhecido, ainda mais a alguém que terminou seu turno de trabalho em um dia quente de verão e quer ir embora. Eu falei, mas logo a livrei da obrigação de fazer comentários, demostrar empatia ou me consolar.
— Muito obrigada, o filme é muito interessante. Vou voltar outras vezes. Boa noite.
Saí enquanto a moça apagava as luzes e revisava a sala. Não tinha lenços de papel na bolsa. Estava com aquele congestionamento nasal pós-choro. Ainda não me recuperara da experiência do filme. Sei que era um filme, havia um roteiro, cinegrafistas, câmeras. Mas as pessoas eram reais. Para quem, como eu, é obcecada pela memória, por lembrar coisas, registrar, guardar documentos, um filme do local e do ano em que a minha mãe nasceu parecia mágica. Uma daquelas mulheres poderia ser a minha avó. Um daqueles bebês poderia ser a minha mãe. E mesmo que não fossem, minha avó deitou nas mesmas camas, teve contato com as mesmas enfermeiras, talvez um daqueles médicos fosse o doutor Alziro, a minha mãe foi colocada naquele carrinho com um monte de bebês, teve a pulseirinha com o número no pulso. Eu acabara de ver algo muito próximo ao que aconteceu quando a minha mãe nasceu.
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Foi no Arquivo da Santa Casa que obtive os dados que me possibilitaram fazer o que a minha mãe nunca quis fazer: descobrir quem era a minha avó verdadeira. Na ficha relativa ao nascimento da mãe, estavam os nomes da mãe dela e dos avós dela, bem como outros dados que corroboravam a versão que tive da história. Nessa ficha estava o nome do Dr. Alziro, que fez o parto da minha mãe. Com essas informações, contratei uma pesquisa genealógica e descobri.
Minha ideia é usar esse espaço para falar sobre os museus que conheci e não sobre a minha vida. Mas a leitura do texto de Pomian trouxe outra dimensão para o significado desses espaços essenciais para a nossa existência.

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