Os museus da Revolução Francesa

Catedral de Siracusa. Agosto de  2018.


Muzeon Moscou setembro de 2017


Há duas semanas, a Promotora do Meio Ambiente de Porto Alegre solicitou que eu fizesse um estudo em função de um caso de vandalismo de uma inscrição histórica. Na Rua Santo Antônio, na frente do número 600, havia uma placa instalada em 2015 pela Prefeitura de Porto Alegre e pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) marcando a existência, no casarão em frente, do Dopinho. 

O Dopinho, diminutivo de Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi um centro clandestino de repressão entre 1964 e 1966. Lá ocorriam prisões ilegais, interrogatórios e sessões de tortura. Em uma pacata casa, em um bairro de classe média de Porto Alegre, enquanto as famílias no entorno faziam suas refeições ou confraternizavam, pessoas eram submetidas a todo tipo de degradação. O local foi desmobilizado precocemente quando, em 24 de agosto de 1966, apareceu boiando no rio Jacuí, com as mãos amarradas para trás, o cadáver do sargento Manoel Raymundo Soares. Manoel fora preso meses antes pelo DOPS e foi descoberto que os agentes responsáveis por sua morte atuavam no Dopinho. Começava um dos casos criminais mais conhecidos da história do RS: o caso Mãos Amarradas. 

Em 2012, O MJDH assinou com a Prefeitura Municipal de Porto Alegre um Termo de Cooperação Técnica visando à implementação do Projeto Marcas da Memória. O objetivo do projeto era assinalar por meio de placas com um símbolo identificador, ruas, calçadas, prédios e praças, locais que tenham sido prisões, centros de detenção, de tortura e de desparecimentos, tornando pública a ocorrência de violação aos direitos humanos. Entre 2013 e 2016 foram instaladas placas em nove lugares de Porto Alegre, uma delas no Dopinho.

Na placa estava escrito:

"Primeiro centro clandestino de detenção do Cone Sul. No número 600 da rua Santo Antônio funcionou estrutura paramilitar para sequestro, interrogatório, tortura e extermínio de pessoas ordenadas pelo regime militar de 1964. O major Luiz Carlos Menna Barreto comandou o terror praticado por 28 militares, policiais, agentes do DOPS e civis, até que apareceu no Guaíba, o corpo com as mãos amarradas de Manoel Raimundo Soares que suportou 152 dias de tortura, inclusive no casarão. Em 1966, com paredes manchadas de sangue, o Dopinho foi desativado e os crimes ali cometidos ficaram impunes". 

Pois no dia 23 de julho de 2020, a família residente na casa removeu a placa e aplicou cimento no local. A Promotoria do Meio Ambiente de Porto Alegre, que cuida do patrimônio cultural, instaurou um inquérito civil para tomar as medidas cabíveis. 

O episódio somente reforça que a memória coletiva de uma sociedade, no sentido de Maurice Halbwachs, é sempre um campo de disputa. A família proprietária da casa em questão se sentia incomodada com a placa. Talvez porque julgasse que desvalorizava a sua propriedade, Talvez porque a placa atraísse atenção indesejada. Talvez por afinidade ideológica com o regime militar. Não sabemos. 

Na aula de História dos Museus e dos Processos Museológicos de hoje aprendemos que o conceito de patrimônio como algo que pertence à coletividade surgiu com a Revolução Francesa. É um conceito que, desde então, vem se modificando, mas esse sentido permanece. E o surgimento desse conceito e dos museus com uma relação singular com o Estado, como diz Dominique Poulot (POULOT, 2013, p. 83), é inseparável do vandalismo. 

O vandalismo não foi inventado com a Revolução Francesa. Segundo Choay, o proselitismo cristão destruiu mais do que as invasões bárbaras (CHOAY, 2006, p. 35). A maioria das edificações da antiguidade que sobreviveram à Idade Média resistiram, pois foram transformadas em igrejas como o Panteão de Roma. A Reforma protestante acrescentou um novo capítulo à história do vandalismo. Era a vez dos prédios e objetos ligados à Igreja Católica sofrer a fúria dos críticos ao culto das imagens.

Choay comenta que no século XV já havia, na Itália, debate sobre a conservação de monumentos e objetos históricos. Mas era um discurso ambivalente, de modo que, às vezes a mesma pessoa defendia a conservação de algumas coisas e a destruição de outras:

“Com efeito, esses homens ofuscados pela luz da Antiguidade e das antiguidades não podiam, da noite para o dia, libertar-se de uma mentalidade ancestral, esquecer comportamentos já há muito arraigados e que continuavam sendo os da maioria de seus contemporâneos, tanto letrados quanto iletrados. O distanciamento em relação aos edifícios do passado requer uma longa aprendizagem” (CHOAY, 2006, p. 58) .

E nesse contexto renascentista, a tarefa de preservação era confiada à Igreja, especialmente ao Papa. 

Qual foi a novidade da Revolução Francesa, então? Creio que, pela primeira vez, o Estado passou a administrar, com todo o seu poder, os campos de disputa da memória coletiva.  De acordo com Pommier, a cultura do museu na época da revolução participava da ideologia destruindo não a obra de arte, mas o símbolo nela contido. Passou-se a dar novo significado a elementos do passado (BREFE, 1998,p. 306). Assim, objetos de luxo da nobreza e dos clero serviam não mais para exaltar o Antigo Regime, mas para educar o novo cidadão a respeito da decadência da sociedade feudal. Se era um trabalho de qualidade superior, a fruição estética era valorizada. Havia um vandalismo simbólico que substituía o vandalismo real.

Nos últimos tempos, a questão da destruição de monumentos voltou à ordem do dia. Os protestos contra o racismo nos Estados Unidos desencadearam uma onda de remoção e pichações de estátuas ligadas à escravidão. Mais próximo de nós há os debates sobre nomes de ruas e escolas que homenageiam figuras ligadas à ditadura militar, como o caso da avenida Castelo Branco em Porto Alegre. É um campo minado no qual não há consenso. Só para dar um exemplo: por que retirar o nome de Castelo Branco da avenida e deixar o o Getúlio Vargas?

Em 2017, fui à Rússia e a forma como eles lidam com o patrimônio soviético me chamou à atenção. São Petersburgo assumiu uma identidade de cidade imperial, escondendo o período soviético. No museu de História de São Petersburgo na Fortaleza de Pedro e Paulo, a história da cidade para no início do século XX. É preciso procurar muito para ver algo do período soviético. Já em Moscou, o passado soviético está em toda a parte. Estátuas de Lênin são fáceis de encontrar. Mas não de Stálin. No pátio do Parque Gorky, há uma instalação denominada sugestivamente de Muzeon com mais de mil monumentos soviéticos que foram retirados dos espaços públicos, inclusive diversas estátuas de Stálin.

Em todos esses casos, a placa arrancada do Dopinho, as estátuas confederadas nos Estados Unidos, os nomes das ruas em Porto Alegre, o parque Muzeon em Moscou, é o Estado que administra as disputas pela memória. É a herança da Revolução Francesa. Os lugares da memória, como diz Pierre Nora, "nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais" E o que eles representam está sempre ameaçado. As demandas sociais mudam com a história, mas os Estados ainda têm papel fundamental. 

 

Foto tirada por mim em frente ao Dopinho em 7 de agosto de 2020




Foto tirada por mim em frente ao Dopinho em 7 de agosto de 2020


Mouzeon Moscou setembro de 2017


A imagem de cima é da Catedral de Siracusa, na Itália. Originalmente, era um tempo grego do século V a.C. No século VII d.C., foi adaptada para ser uma igreja católica. As colunas gregas foram incorporadas ao novo edifício. É possível abstrair e se sentir dentro de um templo grego, que só sobreviveu por ter sido transformado em igreja.

Bibliografia

BREFE, Ana Cláudia Fonseca. Os primórdios do museu: da elaboração conceitual à instituição publica. Projeto História. São Paulo, (17), nov. 1998. 

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade: UNESP, 2006. 


NORA, Pierre; AUN KHOURY, Tradução: Yara. Entre a Memória e História: a problemática dos lugares. Projeto História : Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, [S.l.], v. 10, out. 2012.

POULOT, Dominique. Museu e museologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

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